sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Looking into the Future

Às vezes dou comigo a pensar no Futuro. Inevitavelmente, olho para o Passado, e comparo-o com o Presente, tentando fazer uma espécie de estimativa com base no percurso percorrido. Nunca acerto. Talvez porque enquanto o desenvolvimento da generalidade das pessoas é gradual, o meu é composto por pausas e avanços bruscos, que, na maior parte das vezes, são desencadeados por certos acontecimentos.

Na minha opinião, são estes soluços evolutivos que fazem com que seja impossível para mim adivinhar qual será o meu próximo passo. Como tal, de certa maneira, invejo aqueles que aos cinco anos de idade já têm o seu percurso bem definido e os seus objectivos bem especificados, quer com ou sem influência dos seus pais. Essas pessoas não se deparam com o obstáculo de ter as folhas do Futuro em branco, onde têm de escrever à medida que a história avança, e, consequentemente, não têm de enfrentar o pânico daí resultante; essas páginas, ou pelo menos um esboço, já estão escritos à partida, limitando essas pessoas a seguirem o guião.

Algumas pessoas consideram esta falta de escolha triste, mas eu considero que é uma forma confortante de enfrentar a vida. O que eu considero triste, é a causa desta sensação de deslocação para uns e de conforto para outros. Falo do facto de imporem-nos decisões tão difíceis e restritivas enquanto não passamos de meros miúdos, que, sejamos sinceros, não sabem o que querem. Decisões que implicam, ainda que inconscientemente, a escolha entre a felicidade ou a conformação são decisões que têm de ser ponderadas com calma e raciocínio, e, numa época das nossas vidas em que achamos a escola uma seca e queremos (ainda) mais tempo livre, não estamos, de todo, em condições de responder, com firmeza, a tal provocação do destino, optando pelo caminho que pareça mais fácil.

Em todo o caso, o meu Futuro, cada vez que lhe dirijo um olhar, continua coberto pela tal neblina, talvez também, por causa das minhas incertezas e indecisões. Quando ingressei no décimo ano, tal como outros da minha idade, tive que decidir algo por mim mesmo e que iria definir o caminho que iria seguir mais tarde. Os meus critérios não para aqui chamados, mas o principal é que, sabe Deus porquê, fui fazer um teste psicotécnico e que me deu para a área Económico-Social (ou algo do género). Baseando-me nisso, e deixando para segundo plano outros gostos, ingressei no Curso de Ciências Sociais e Humanas, opção de que depois me arrependi. O fundamental é que a minha experiência em Comunicação Social veio mudar a minha opinião. Aqui descobri que gostava de escrever, e o curso ainda mais me motivou nesse sentido. Afinal de contas é capaz de ter sido uma boa escolha, embora possa gostar e não ter jeito, mas isso só quer dizer é que tenho de me esforçar mais.

Descobri uma paixão, e os meus outros gostos ficaram como hobby nos quais me interesso. Gostava de ser profissional nessas áreas, mas agora acho que estou onde devia estar, e pela primeira vez não me sinto deslocado. O Futuro, esse ainda continua incerto. Vou ter que perfurar a neblina e ver o que está do outro lado, o que vai requerer esforço, mas se me aplicar, até pode ser que seja, não brilhante, mas dourado. Dourado como a sensação de felicidade e realização. Por enquanto, isso é tudo o que ambiciono.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Corrupção e Palavras

As palavras têm várias utilidades. Com elas podemos exprimir sensações, emoções ou pensamentos, mas também podem ser uma ferramenta, ou até mesmo uma arma. Como espécie racional que somos, as nossas lutas são agora, ou pelo menos deveriam ser, travadas através da lógica imbuída nas palavras que utilizamos para defender as nossas teorias e/ou pontos de vista, em campos de batalha abstractos, mas bem presentes na nossa realidade.

Os filósofos na antiga Grécia utilizavam as palavras como meio de se enriquecerem cultural e intelectualmente, através de confrontos onde ambos os lados beneficiavam, quer em conhecimento, quer em capacidade argumentativa. Através da discussão dos factos, as mentalidades podem evoluir ao fundamentar consistentemente as suas opiniões, e, assim, procurar uma perfeita teoria ou tese para determinado problema/assunto. No entanto, para ter tais discussões abertas, é necessário ter uma mente igualmente aberta. Ora, como todos sabemos, a Humanidade esconde a “vilandade” dentro de si, e pessoas cujos dogmas e interesses dominam, aparecem sempre. Neste caso concreto, essas pessoas são os sofistas: pessoas dogmáticas e cujo único objectivo é o cultivar do Ego e reputação, que aumentam com o número de discussões “ganhas” e teorias refutadas. Discussões que envolvem sofistas acabam sempre em catástrofe, porque ninguém verdadeiramente ganha. Teorias potencialmente importantes para o desenvolvimento civilizacional são refutadas por estes homens através de falácias de raciocínio que o lado defensor não detecta, e o conhecimento que poderia dali resultar é perdido, ou melhor, trocado por fama e fortuna, deixando o Conhecimento e o ideal filosófico para quadragésimo quinto plano.

Isto é grave, porque representa, sem excepção, o tipo de caminho que a Humanidade percorreu até aos dias de hoje, e que, infelizmente, continuará a percorrer. Troca-se conhecimento, sem preço, por um punhado de barris de petróleo, e vendem-se ideias que visam a manipulação de ideais. O estrelato é também muitas vezes obtido através de truques e manhas que eliminam todo o esforço de outrem. Só prospera quem está de acordo com os interesses de cima; tudo o resto é pó.

As palavras assumem uma importância extrema na nossa vida, tenho pena é que a maior parte das vezes sejam utilizadas para fins vis e egoístas, e não para o enriquecimento de todos os seres humanos por esse globo fora. Estarem absorvidos com as suas pequenas e insignificantes vidas também não ajuda, mas a ausência de motivação em buscar o Conhecimento e a falta de vontade em discuti-lo com os seus semelhantes é ainda mais grave, pois leva a uma estagnação no desenvolvimento intelectual do indivíduo, da sociedade, e inclusive da raça. Devíamos parar de engolir tudo o que nos atiram e sermos mais selectivos. Lá por aparecer na televisão ou nos jornais, isso não torna os acontecimentos, ou informações, verdadeiros(as). Numa era em que os media só querem audiência, o sensacionalismo reina, e todos sabemos que o sensacionalismo não é o caminho para a verdade, mas sim a honestidade e a humildade perante o público.

Corrupção inata do homem, leva a corrupção aos media, que por sua vez corrompem intelectualmente a multidão, o povo, guiando-a por um caminho erróneo, de forma a enraizar-se ainda mais nas mentalidades e manipular toda uma sociedade, civilização, e ainda por cima lucrar com o feito. Este é o verdadeiro poder das palavras.

[Este texto foi publicado no fórum eXPe]

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Crueldade

Viro-me para a minha esquerda e o Sol bate fortemente. Por reflexo, as pálpebras estreitam-se, e o choque luminoso diminui. O calor, no entanto, perdura e, enquanto avanço em direcção ao abismo, dá uma agradável sensação de conforto. Estaco repentinamente, sentindo carícias de algumas ervas rasteiras, e, do alto do rochedo, vejo crianças que correm alegremente pela areia da praia. Um sorriso nasce na minha face. Ergo um pouco os olhos e olho o distante horizonte que cavalga em cima da água marítima. Algumas nuvens no céu, manifestam o stressante ritmo citadino, ritmo que já não faz parte da minha pessoa. Num sopro forte, o vento varre a minha face, tão violentamente que alguns grãos de areia se fazem sentir na pele. Dá uma leve sensação de esvoaçar, mesmo, e talvez apesar, de não me mexer. Levanto os braços, e sinto a minha falta de aerodinâmica. Olho para mim mesmo e apercebo-me que não preciso de tanto. Basta-me o cabelo para sentir o vento, e as mãos para o tentar prender. Bastam-me os olhos para admirar o horizonte, e a pele para sentir as suas investidas de sal e areia. Ilusão? Sim, ilusão. Que crueldade puseram em frente dos meus olhos... Mas eles não resistem; não se desviam. Doce ilusão. Ou ilusão presente de um futuro próximo? O bip-bip da máquina não há meio de parar. Pára, raios! Pára! E acaba com esse som infernal! Tanto que eu queria, mas ela ignora as minhas exigências. Que crueldade... O quanto eu gosto daquela pintura...

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Divagação

Memória. É uma parte integrante do nosso ser. Dá-nos a possibilidade de gerar uma personalidade através da acumulação de experiências vividas por nós ao longo da nossa vida. Vida essa que é gerada todos os dias, controlada outros tantos, e chega ao fim em mais alguns. Entre empurrões políticos e choques ideológicos, as influências estão sempre presentes, tanto para bem, como para mal. Suponho, no entanto, que qualquer tipo de influência é errado, porque ser influenciado é carregar os desejos de outrem e toma-los por nossos. Mas, devo reconhecer que um ser humano sem influencias é um ser inseguro e incapaz de ter poder de decisão. Poderá isto implicar que nenhuma das decisões, opiniões e posições que tomamos sejam verdadeiramente nossas? Poderá ser que a nossa existência não seja mais do que um mero reflexo de outras antes da nossa? De facto continuamos a venerar saberes antigos provenientes de antigos sábios, sem que, consigamos enxergar o Presente, e os saberes que ele nos proporciona. O Futuro tem igual importância. Preocupamo-nos em construir o futuro, e em saber o que ele nos reserva, olhando sempre para o Passado em busca de matéria para comparação, mas esquecemos frequentemente o Presente, que é vivido por quem tem dificuldades. Essas pessoas não conhecem o Passado, não querem saber do Futuro, e mal conseguem sobreviver no Presente. No entanto, elas próprias são o nosso Presente. É nelas que nos devíamos focar mais, e não em novas tecnologias que tentam trazer o futuro até nós, até porque, deep inside, todos sabemos que a felicidade reside na simplicidade e não na complexidade criada em laboratórios que visam lucro. Se bem que apesar de tudo sou um pouco suspeito para falar. Sou um gamer e sou também produto desta geração consumista que alimenta o Capitalismo. Já lá dizia o outro “I am what the society made me”. Mas ainda apesar disso, consigo ver a verdade e o caminho que a humanidade devia seguir. Serei um iluminado? Não. Basta apenas querer manter os olhos abertos.

[Este texto foi publicado no fórum eXPe]