segunda-feira, 17 de março de 2008

Untitled #1

Todas as semanas venho até aqui e olho para a tua campa. Não sei o que procuro por entre estes vasos tombados, estas flores murchas e esta areia espalhada aleatoriamente pelo chão, misturada com pétalas secas que simbolizam apenas morte. Não sei o que procuro, mas de certo que não és tu. Mafalda, o quanto sinto a tua falta, mas faltam-me as palavras com que exprimir-me, talvez, quem sabe, roubadas pelo mesmo vento agreste que brinca com as folhas dos eucaliptos em redor e ergue no ar as pétalas da morte. “Promete-me que vamos estar sempre juntos”, disseste tu, num sussurrar intermitente por entre as lágrimas de choro que vertias quando tinhas dúvidas acerca de Nós. Eu acenei, olhei-te nos olhos como não fazia há tantos anos, e tu abraçaste-me com a força de quem não vê amor há igual tempo. Talvez na verdade tu não me tivesses visto verdadeiramente durante anos, ainda que me visses todos os dias quando chegava a casa e lá estavas tu, à minha espera pacientemente a altas horas da noite; talvez isto tudo tenha sido minha culpa. Que te fiz, Deus…

Um bilhete em cima da mesa de vidro da sala denunciou as tuas acções. A mesma mesa onde costumava jantar uma família incompleta e aparentemente feliz, era agora portadora de destruição. Fitei o bilhete, a recordar memórias de ninguém, e finalmente ganhei coragem para o ler, já sabendo, sentindo, o que carregava nas suas palavras… Que palavras cruéis, Mafalda. Palavras que me estilhaçaram o coração em pedaços tão pequenos que se tornaram incontáveis, como magníficas estrelas no Universo e insignificantes grãos de areia numa praia banhada pela água salgada. Não estava preparado para tal violência emocional… Porque te abandonei eu? Amava-te… O que mudou? O que aconteceu? Amava-te na altura e continuo a amar-te… Talvez não soubesse expressar-me, ou talvez não me expressasse tanto quanto devia, mas é um facto – amo-te, e isso não mudou, nem nunca vai mudar. Porque é que não disseste nada? Que te faltava a essência da vida. Poderia ter saído, encontrar outro emprego… Sim, claro que não disseste. Pensavas na minha felicidade. Mas a minha felicidade é junto de ti… Não. Devia ter sido eu a notar, a reparar no estado lastimável em que te encontravas. Devia ter notado que a única companhia que encontravas estava nos anti-depressivos que tomavas. Devia ter notado. Tinha a obrigação de não esquecer tão facilmente as discussões que tínhamos, por vezes até em frente das crianças…

Que saudades… As crianças, com o tempo, conseguiram seguir em frente, mas deixaste-lhes uma cicatriz tal, que o teu nome é tabu em tudo quanto é conversa. À parte disso, estão ambas bem, e seguem o seu caminho. O Pedro tem 18 anos e vai para a Universidade ainda indeciso sobre o que vai fazer. A nossa pequena Maria, essa, ainda continua pequena aos meus olhos, mas o tempo passa tão depressa… Já tem 16 e anda naquela escola que tínhamos escolhido, lembras-te? Aquela com os grandes jardins. Diz que quer ser Bióloga, tal como já dizia quando ainda eras capaz de lhe ver os olhos azuis, perceber a sua tristeza e acariciar o seu cabelo em momentos difíceis, deixando-a tombar a cabeça sobre o teu misericordioso colo. Sempre foste boa mãe… E eu um péssimo pai.

Nunca te cheguei aos pés. Talvez seja isso que procuro ao vir aqui; talvez procure um dos sábios conselhos que me costumavas dar quando me sentia perdido. De facto, sinto-me um pouco perdido. Perdido na vida, perdido no mundo… No fundo nem sei porque continuo a vir aqui. Não sei sequer se ainda estás aí debaixo. Tantos anos passaram, e a vida parece tão curta… Que procuro ao vir aqui? Amor. Sim, talvez seja isso. Depois de te ires não houve mais ninguém. Sinto a tua falta; quero estar perto de ti… Quero ser capaz de manter a minha promessa… No entanto, foste tu que a quebraste. Já não sei nada… Prefiro não saber. Quero que a imagem que tenho de ti nas minhas recordações seja a mesma: boa mãe, boa mulher e boa amante. Não preciso de mais nada a que me agarrar, até porque, na verdade, muita coisa me passou ao lado e vivia na ilusão, sem conhecer a maioria dos factos. Talvez seja a minha doença a falar… “Verdade?”, diz ela, “Quem precisa dela? A Realidade é uma coisa feia, e que nos torna miseráveis. Viver na ilusão com um sorriso. Isso é que é ser feliz. Queres ser feliz?” E eu quero, quero realmente ser feliz e ser capaz de pôr para trás tudo o que aconteceu. Mas não consigo; não enquanto me atormentares todas as noites e me inundares de culpa.

Percebo agora que venho aqui em busca do teu perdão. Preciso de aliviar este peso de culpa que me persegue desde aquele dia. Perdoas-me? Deixas-me repousar esta velha e cansada cabeça no teu misericordioso colo, para que me adivinhes também a tristeza? Nesse colo, que elimina mágoas e culpas, que tem o poder de me purificar por completo? Por causa da desgraça que te causei, bem sei que não mereço sequer ouvir um “Não” da tua graciosa boca, mas o sofrimento pesa... Eu conheço-te, e sei que ainda me amas, por isso sei que não serias capaz de amaldiçoar esta pobre alma eternamente… Ou serias?

quarta-feira, 12 de março de 2008

Sonolência

Precisamente enquanto escrevo estas linhas, os meus olhos abrem e fecham sistematicamente para tentar eliminar uma nuvem que me deturpa a visão (o que mos obriga a esfregar constantemente), a minha mão treme, fazendo ocasionalmente a caneta desenhar letras de um alfabeto alienígena e, para completar o cenário, de tempos em tempos bocejo como se não houvesse amanhã. Neste preciso momento, encontro-me pacientemente à espera do meu tão aguardado capucchino (desculpem lá se não sei escrever a palavra, mas, sejamos francos, há coisas mais importantes na vida), que parece nunca chegar até mim. Vem, não vem. Vem, não vem. O empregado anda de um lado para o outro a decidir se mo há-de entregar primeiro, ou se primeiro faz a sandes de fiambre que pedi. Ainda não tomei o pequeno-almoço (como, aliás, se pode verificar) e por isso estou com fome, mas raio, tenho mais sono do que fome!

É sempre a mesma coisa. Começam as aulas e eu tenho de me reajustar ao novo horário. Goodbye, dias em que me levantava às 10:30 e goddamn you, dias infernais em que me tenho de levantar às 7 da matina. A pior coisa que podem tirar à minha pessoa é as horas preciosas em que descanso a minha magnífica (ou não) mente. Sabe tão bem deitarmo-nos à meia-noite para nos levantarmos 10 horas depois, frescos, bem dispostos, prontos a actuar e com uma nova perspectiva acerca da vida. Pode parecer preguiçoso da minha parte, mas não é. Desenganem-se, porque na verdade trata-se de um treino intensivo de reflexão onde a capacidade intelectual adormecida no subconscien… Er… Sim, é preguiça.

Ah, cá está! Finalmente o meu adorado capucchino chega ao nosso blind date e… Espera. Blind date indeed, pois isto não é um capucchino, mas sim uma abominante mistura de leite com café! Isto é um ultraje! Quando penso que não vi suficiente incompetência, vem o Fado e surpreende-me uma vez mais. Enfim, ralhete pregado ao empregado e ele leva a coisa para trás. Tudo o que quero é um pouco de cafeína! É tão difícil de compreen… Hm… Aquilo não tinha café? [. . . – Pausa] Oh my God… Esta sonolência está a dar cabo de mim…

A culpa é do computador! Oh, máquina diabólica de entretenimento! O teu software corrompe o meu tempo de sono por um vício nada saudável, e ainda por cima por um jogo que não é nada de especial, muito pelo contrário – seguem-se clichés atrás de clichés numa narrativa tão fraca e previsível que me faz chorar, pelas razões erradas – , mas cujo sistema de combate é viciante, tão viciante que me agarra horas a fio. “É só até às 22:00”, penso eu para com o meu teclado, mas às 23:30 ainda dou comigo a aniquilar, temporariamente (é notável a capacidade de respawn dos bichos – entra e sai-se de uma área e os gajos já lá estão, prontos para nos tentar agarrar), uns bichos esquisitos, que querem parecer (mas que na verdade não se parecem com nada) caranguejos, na 1ª pessoa e com um bastão mágico que lança projécteis de energia, bolas de fogo, ou electricidade. É triste? É, sim senhor. Tanto, que não fazia intenção de revelar que o andava a jogar, mas afinal parece que é inevitável, uma vez que esta é a causa da minha grande quantidade de sono. De The Witcher para Sudeki, o quanto eu desci…

Lá vem outra vez o empregado e desta vez parece estar tudo dentro dos conformes. Vou finalmente poder saciar a minha fome e a minha súbita necessidade de cafeína. Até nem costumo consumir assim tanto (men, espero que tenham lido o que está para cima; não quero cá comentários com más interpretações acerca desta expressão, hã!) mas cá na ESTA (Escola Superior de Tecnologia de Abrantes) estamos no período do Encontro da Comunicação (este ano o VII), e como tal vai cair-me em cima uma esmagadora quantidade de palestras e apresentações, que, segundo dizem, vão ser importantes para o nosso desenvolvimento profissional. Pensando bem, se calhar convém pedir um cafezito duplo hoje a seguir ao almoço. O dia vai ser longo… Interessante, mas longo e cansativo.

Geez… Isto começa bem. Logo no 1º Painel de hoje (o 2º de 3 dias) levo com uma apresentação de um livro qualquer sobre Comunicação Empresarial.
[Para quem não notou, há um grande intervalo de tempo entre este e o último parágrafo.]
My God… Isto não me interessa minimamente, e escrevo só mesmo para me manter sóbrio (olhem as interpretações), o que, estranhamente, parece estar a resultar. [Pausa] Ai, ai… Paro para reflectir um pouco e já vou adormecendo. Escreve, escreve; não pares de escrever…

Bem, acho que não há volta a dar. Não posso aumentar (ainda mais) o texto e apercebo-me que não é lá muito delicado da minha parte estar sentado na segunda fila a escrever enquanto alguém se esforça numa apresentação (qualquer dia posso ser eu, e eu não ia gostar). Dou, portanto, assim por terminado este gigantesco e caótico texto que é totalmente desconexo (leia-se, sem princípio, meio e fim – meh, nem sei que tag vou meter nisto) escrito, realizado e publicado inteiramente no mesmo dia: hoje, dia 12 de Março de 2008, quarta-feira.

A sonolência começa a estender os seus tentáculos… Não sei se vou conseguir aguentar muito mais… Se alguém encontrar este texto, é favor publicá-lo no endereço http://silentvoid-losthoughts.blogspot.com. Obrigado...

Must not sleep… Must warn the otherzzzzzzzzzzzzzzzzz

segunda-feira, 10 de março de 2008

Aparente Crise Creativa

Er... Já vai a algum tempo que eu não posto por estas bandas. Atravesso um bloqueio criativo tal, que nem o meu W.I.P. (Work in Progress) avança. Que falar? Que escrever? Que opinar? Que achar? Que reflectir? Que fazer? Que filosofar? Tenho um certo receio de ja ter atravessado o meu expoente, e de que esteja a estagnar em temas. Ter jeito para escrever não basta. É necessário ter algo sobre o que escrever.

Bem, chega uma altura na vida em que todos os escritores passam pelo mesmo. Eu pelo menos quero acreditar que sim, e quero ultrapassar o que parece ser o meu limite. Esta situação é deveras incoveniente depois de tudo o que escrevi até agora. Sinto que seria um desrespeito para com o passado não continuar, mas ao continuar a escrever, tenho medo de só estar a escrever por escrever. Que fazer, então? Tenho algumas coisas em mente, e creio que estou no bom caminho para tal. Levo mais tempo nos meus textos e trabalho em projectos simultaneos. Por agora tenho este Blog, mas estou também a escrever para uma Newsletter, onde tenho uma Coluna de Opinião. Creio que será este o passo certo a dar; um passo em frente para de frente enfrentar esta estagnação criativa.

Como disse, perco agora mais tempo no desenvolvimento dos meus textos e isso atrasa a sua publicação por aqui, mas acredito que ao aumentar a minha rigorosidade, estes sairão com mais qualidade, embora, lá está, demorem mais tempo a chegar até vós. Neste momento, estou a trabalhar numa retrospectiva de duas partes que, provavelmente, irá para a Newsletter, mas também num texto criativo para aqui, onde creio ter inovado em relação à sonoridade fonética quando se lê em voz alta, e, finalmente, uma pequena série de 4/5 partes baseada no meu W.I.P, onde faltam apenas duas partes por finalizar, que só postarei, uma parte de cada vez, quando a obra estiver completa.

Mais um announcement junta-se aos outros. Simplesmente achei que era pena estar a vir ca tanta vez para encontrarem tudo na mesma, quando eu proprio sinto a mesma tristeza ao aceder à pagina. É mais um boletim informativo do que propriamente um texto, em todo o caso, é melhor do que nada e pelo menos assim ficam a saber que não estou parado. Hm... Uma nota final: os textos que publicar na Newsletter serão postados aqui passado algum tempo da sua saída. Afinal foi para armazenar os meus textos (quaisquer que sejam) que eu criei este blog. Um bem haja a quem continuar a ler, e vou tentar não fazer-vos esperar demasiado.

Até ao proximo post.

Renato Lopes
(Lp/Strife)