terça-feira, 20 de maio de 2008

Artwork #2


Ouço passos. "Quem vem lá? Está escuro; não consigo ver. Quem és?" "Ninguém" Silêncio, e uma voz pesada pergunta "Como te chamas?" "Se to dissesse ficaria ainda mais desprotegida" "Não precisas de mo dizer" "Porque mo perguntas, então?" "Por nostalgia" "Nostalgia?" Não ouvi resposta.

"E tu, estranho que navegas nas minhas sombras? Dás por que nome?" "Não preciso de to dizer..." "Porquê?" "Porque tu o sabes" "Se soubesse que me levaria a perguntá-lo?" "Por mais que me custe, o esquecimento" "Relembra-me então" "Não seria genuíno" "Sinto tristeza nas tuas palavras, meu caro romeiro..." "Não me chames romeiro, não fiz nem nunca farei peregrinação a invenções humanas para suportar as suas fraquezas", interrompeu-me com um tom aparentemente ofendido e continuou o seu lamento "Já a tristeza, essa nada é mais do que um acessório."

"Lembras-te do porquê de estares rodeada por sombras?", perguntou repentinamente "Não" "Porque não te encontras rodeada por sombras, mas antes por luz" Não disse nada "Que dizes? Rodeada por luz?" "Abre os olhos, e vê por ti própria" Vagarosamente abri as pálpebras e uma luz incandescente entrou por mim. "Vês?" Um deserto de branco à minha frente. Teria sido um sonho ou um... "Pesadelo?" "Sonho. O Pesadelo fica para estes lados." A voz vinha agora de trás, como tal, voltei-me procurando ver o estranho ninguém que me havia libertado. Só vi uma infinita parede negra que se propagava em todas as direcções, sem no entanto ultrapassar aquele limite que verdadeiramente não estava ali. "Romeiro?" "Não insistas em chamar-me isso. Estou aqui, não temas" "Onde estás? Por detrás da negra parede? Onde brilham esses dois feixes luminosos de cor vermelha?" "Isto não é uma parede, antes dois mundos divididos sem qualquer barreira. Eu estou aqui, do outro lado"

"Estamos em mundos diferentes?" "Sim, mas podemos ter breve contacto" Estendeu-me uma mão e a sua cabeça emergiu do sítio onde outrora brilhava o que, eu agora vejo, eram os seus olhos, vermelhos como rubis. "Como podes ver, sou eu quem navega nas sombras e não tu" Estendi a minha mão para alcançar a dele, num embate suave, ainda que áspero na sua mão. Ele sorriu "Não te lembras de mim?" "Não" "Nem mesmo com o contacto que as nossas peles ansiavam há tanto tempo?" "Não" "O roçar da pele não te invoca emoções, recordações ou sentimentos inexplicáveis? A tua pele não estremece como a minha ao sentir a tua presença?" "Lamento..." Pareceu desanimado e baixou a cabeça por momentos, acariciando-me sempre a mão, como se de facto sentisse a saudade de que falava.

"Petra; minha Petra... Que foi que ele te fez?" Fiquei confusa. "Tira-te dos meus braços, leva-te para longe e apaga as recordações e os sentimentos de ti em relação a mim, mas não o contrario..." "Ele?" "Mas ele vai pagar!" Ergueu de súbito a cabeça num acto de raiva e cerrava os dentes sobre o brilhar vermelho dos seus olhos. Assustei-me e larguei a mão. Ele não me censurou. "Ele quem?", ganhei coragem para perguntar. "Aquele que segura ambos os mundos nas suas mãos; aquele que se julga um paladino ao serviço da Justiça, mas que gera mais conflito em proveito próprio; aquele a quem a obsessão de vingança possuiu, tanto que o acto em si não chega nem chegará para saciar a sua fome" "Quem..." "Michael" "Quem?" "Ele está ali, olha. Observa-nos, tal como sempre fez, com contínua e doentia inveja da nossa felicidade; da felicidade que me trazias, à qual, do seu ponto de vista, eu não tenho direito e ele sim." "Silêncio!", irrompeu um indivíduo vindo do nada e que segurava espadas em ambas as mãos.

Espadas magníficas, sem dúvida, com um aspecto cristalino e puro. O ser humano comum poderia dizer até que aparentavam ser sagradas: uma espada branca de lâmina e punho negros e uma espada negra de lâmina e punho brancos, ambas com uma pequena corrente presa ao punho, onde cada uma trazia um emblema, cujo aspecto eu não consegui distinguir com clareza. As suas vestes emanavam também dualidade: usava um calçado branco, calças negras, camisola branca e, mais acima, por baixo do seu cabelo negro, um pequeno crucifixo também ele negro, pendurado na orelha esquerda.

"Silêncio, já disse!" O romeiro exaltou-se "Quem julgas que és para me mandar calar?! Reles verme!...", respondeu enquanto lhe dirigiu o olhar de forma tão ameaçadora que eu estremeci "Tu, triste marioneta, ousas falar-me, a mim, nesse tom?! Tolo! Nada és mais do que um tolo, se pensas que esta situação se vai arrastar por muito mais tempo." Uma perna saiu furiosamente da escuridão dando um passo na minha direcção, ainda que a própria escuridão se tornasse mais adensa de modo a tentar impedir a transgressão, aparentemente em vão. Lentamente, o romeiro abria caminho e o outro sujeito fitou-o nos olhos, encarando-o calmamente, sem mexer um músculo. Eu estava assustada. Não sabia o que estava a acontecer e muito menos previa o desfecho da cena. "E tu? Quem és tu para me falar do alto do trono em que te colocas?!", disse furiosamente o outro "Genocída!", e cuspiu para o chão inexistente mas que passou a existir, e onde atirou a espada branca, que se cravou no chão, esperando pacientemente o pé respectivo para a enterrar quase que totalmente. Não se ouviu um único som, mas a espada começou a emanar uma luz esbranquiçada, não sem, no entanto, uns feixes negros, porque em tudo o que é puro há sempre algo obscuro.

O romeiro, que já havia passado metade do seu corpo em trajes negros, começou a ser sugado de novo para a escuridão. Ele lutava e tremia, cerrando os dentes e empurrando os membros violentamente na minha direcção. Eu olhava, sem qualquer reacção, e de repente estremeci ao ver-me confrontada com um olhar triste vindo do seu rosto "Petra..." O romeiro esticava a mão numa última tentativa de me alcançar, enquanto me penetrava com aquele olhar triste, saudoso e solitário, olhar que tinha a impressão de já ter visto em algum lugar.

Olhei para ele, com certo receio, e depois olhei para o portador das espadas, que recolhia a que havia enterrado e me acenava negativamente com a cabeça, fazendo balançar o pequeno crucifixo levemente na orelha. Tive dúvidas. Memórias apagadas? Será isso possível? Que memórias? Que... Espera. O olhar triste, eu já o vi. Onde? Dinheiro, ouro. Roubei, sim, roubava. Ele deixou, e os nossos olhares cruzaram-se, o dele terno e gentil, o meu amedrontado e receoso. "Uma casa abandonada, coberta de trepadeiras...", comecei, tentando recordar mais alguma coisa "Roubei-te ao chegares à aldeia", ao sorriso acrescentou-se um brilho nos olhos, qual olhar sonhador de criança "As noites... Um bosque?" Vi uma expressão sonhadora na sua face e soube que era verdade. Será possível que ele tenha dito a verdade? Tive dúvidas. Olhei hesitantemente para o romeiro, que se afundava na escuridão, e para o outro sujeito, que parecia preocupado. Tive dúvidas, mas ergui a mão. Algo cá dentro; algo que aparentemente havia esquecido, me dizia para agarrar aquela mão com tanta força que nem a própria dualidade do mundo poderia interferir, de modo a sentir mais uma vez a sua pele, agora áspera, mas que outrora não o era.

Estiquei a mão e a minha pele tremeu, como se reconhecesse melhor que eu algo, alguém, mais do que familiar no passado. "O teu nome..." "Sim?" "É Isaac, não é?" Ele sorriu agora ternamente, e sentiu a minha mão. "A solidão, a solidão... Nada foi o mesmo desde que te conheci" Levei-lhe o dedo à boca, e mandei-o calar "Temos muito tempo pela frente" O portador das espadas cerrou o olhar e baixou os braços, ciente de que não podia fazer nada, e nós dois mergulhámos juntos na escuridão, onde ele me tomou nos seus braços.

Não tinha certezas de nada, muito pelo contrário, mas de facto aquela escuridão parecia tentadora...

terça-feira, 13 de maio de 2008

Rajada

Escrito de uma vez enquanto esperava o almoço de hoje. Acho que se pode chamar de improviso:


Só vejo sombras em meu redor. As letras prendem-me ao papel como viciado que sou e soltam-me num instante, num instante apenas onde recupero o meu fôlego. Construção de uma obra, desconstrução de um ser. Tempo? Quem tem Tempo? Nunca ninguém tem Tempo. Em casa, num escritório, num café, num escritório, numa empresa… Busy, busy, busy, dizem os ingleses; work, wok, work, dizem os patrões ingleses. Ontem um gato arranhou-me. Será que escrevo sobre isso? Escrita mainstream, generalização da escrita. Hoje em dia qualquer um pode ser escritor. Idiotice pensar, fala-se sem pensar, sem saber, sem conhecer, sem argumentar, sem aprender. Flama-se* por e simplesmente só. Geração da pastilha elástica. Isso é o Passado. O Presente é a geração Hi5. E o Futuro… Ó o Futuro… Que nos reserva ele para o ano de 2056? Fim do mundo, Apocalipse, Ragnarok… Fim da existência social, e da existência em geral, mas essa existência também acabou quando um miúdo morreu em frente ao computador a jogar WoW**.

Ah, finalmente Paz. Um jardim. Um jardim de recordações. Brincadeiras com carros que eram mãos e jogos inventados com imaginação. Chega o demónio e a tecnologia é implantada. Quem sou eu? Sou mais um. Um quê? Consumista. Geração X, Geração W, Geração Y, M, e o resto do alfabeto. Consumo é vivência e vivência é consumo. Carjacking. Carros são jackados por muitos jacks. Jack. Jack Sparrow, Disney, desenhos animados, webcomics, BD, Manga… Hentai. Pervertidos frente ao computador que lhes permite fantasiar as suas fantasias. Pornografia. Nada é sensual, belo, bonito, e sim duro e completamente inútil ao olhar. Depois queixam-se dos calos, claras evidências do instinto humano.

Imaginação, Saber, Conhecimento… Onde param os Cogumelos Mágicos? Todas as pessoas sabem que os cultos são atrofiados por natureza, e que Animação é só bonecos. Ninguém se preocupa com o significado: “Que piada isso tem?”. Pobres ignorantes que só vêm o que lhes é posto à frente, pois ver para além do óbvio requer esforço.

Belas conversas no MSN. Nunca vou esquecer a nossa conversa, Marilda. Espero que te tenha sido útil. De resto, “Olá” “Como estás?” “Estou bem” “O Itachi sempre morre?” “Parece que sim”. Espião T. Referências, sim, referências pessoais que só eu entendo; eu e mais ninguém. Aliás, é para essa pessoa que escrevo isto: Para o Renato - do seu pseudo alter-ego.

Vou comer. O almoço já deve estar frio.