segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Caneta pesada

Um bicho chamado mudança surge-me por vezes em pensamentos na forma de uma mulher esbelta que ameaça corroer o meu “eu” existente juntamente com a sua obsessão desesperada e vã de alcançar a felicidade. Tudo passa rapidamente, como o vento do Outono que me guia para mais um dos meus típicos soluços evolutivos, e a inspiração varre-se também ela, roubada pela mulher esbelta de olhos penetrantes como se fosse um mero brinquedo e eu uma ingénua criança vítima de agressão psicológica e chantagem mental: “Queres crescer? Olha que perdes isto.” Fraco e sem força de vontade, agarro.me raquiticamente mais um pouco ao Passado, ignorando o Presente e temendo o Futuro, enquanto a mulher esbelta se afunda uma vez mais no plano da minha inconsciência com uma face translúcida e de decepção.

Sou um covarde sem moral existencial; um covarde que encontrou o seu némesis num amontoado de letras chamado texto, e que se sente derrotado pelo mesmo. Absurdo, falso, ridículo. Mas é verdade. Um mero texto, um singelo texto acarta uma pressão tão grande dentro de si que esmaga a minha ousadia e fragmenta a minha vontade de me ultrapassar a mim próprio, de ser melhor; de crescer. Sucumbi à frustração e um dia, subitamente, a caneta parou de se mexer. De repente, o peso da caneta subiu para atingir um patamar muito além das minhas capacidades. O peso do Mundo, o peso da Gravidade, o peso da Consciência, o peso do Futuro concentrou-se na simples caneta para que eu não desafiasse o Destino e voltasse antes à pacata realidade.

Qual é a minha inspiração? O que é que fez outrora a caneta mover-se? Desabafos pessoais? Conflitos? Reflexões intrusas? Amor? Tédio? Paixão? Conhecimento? Não. Nada disto. Apercebi-me recentemente que o que fez a minha caneta desenhar caracteres nos caixões florestais que trago comigo está escondida pelas ruas de Abrantes, por entre os corredores da extensão IPTesca onde estudo, em cima das mesas dos restaurantes onde como, nas esplanadas dos cafés onde observo o ambiente citadino, nos muros e degraus onde me sento, na vista maravilhosa a partir do Castelo, e sempre que uma lufada de ar fresco me transporta a um patamar metafísico por breves instantes.

A questão persiste. Será este bloqueio temporário? Será este gosto pela escrita temporário? Apenas uma delas pode ser temporária, mas não sei qual é ou qual foi. Porém o meu regresso à capital do concelho está marcada e com ele o desvanecer desta nuvem. Eu precisava disto; eu preciso disto. Preciso de regressar aos cafés, de regressar ao Castelo, de regressar onde pára a minha inspiração. Preciso de regressar à faculdade para poder chamar de livre vontade a mulher esbelta que me irá permitir avançar um patamar à frente; para poder derrotar o meu actual némesis. Mas será que ela responderá ao meu chamado, após a desilusão que lhe causei no Passado…?