quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Sob o luar violeta #1

Levanto-lhe o véu lentamente, vagarosamente. Ela fita-me com uns olhos violetas deliciosos e redondos; duas autênticas luas cheias contagiadas com um veneno colorante, mas este cativo do véu negro. Anseio por ver aqueles olhos, aquele nariz elegante e o cabelo prateado, longo e ondulado, que lhe sobe dos ombros, mas fico especado a olhar para a sua beleza que vejo nas minhas memórias e engulo em seco. Sei o que me espera, mas é irresistível... No entanto, no fundo, sei que é uma tentativa de sabotar a minha própria felicidade e paro enquanto me debato com a incerteza e com o dilema por ela provocado.

Recordo-me dos saudosos dias em que andávamos de mão dada, nos aventurávamos na mata, em que olhávamos a maquete de uma escola vista de cima, esperávamos o pôr-do-Sol de cima de um monte... Recordo-me do tempo em que éramos inseparáveis, e o meu nome indissociável do dela. Fui inundado por uma súbita nostalgia e forcei-me a puxar o véu, debilmente e a tremer. Um sorriso nasceu na sua face e a sua voz doce e melodiosa voz entrou nos meus ouvidos alegremente como música e ecou pelo meu Ser, vibrando-o e seduzindo-o novamente, uma e outra vez, sempre que uma palavra num idioma desconhecido senão a mim escorregava levemente pelo seu sorriso.

Livre do véu negro, a pele clara cintilou sobre a luz lunar, e a sua cabeça adulta de feições infantemente encantadoras brilhou na sala escura como se possuísse, de facto, luz própria. Linda. Absolutamente linda e tão radiante que por momentos a sua beleza ofuscou a própria Lua, que perdeu momentaneamente o seu brilho, transformando a Lua Cheia em Lua Nova num ápice. Os meus olhos não se fecharam nem por um momento, pois de tanto tempo passado com ela, havia-me tornado imune ao seu brilho. Ironicamente, não havia ganho resistências algumas contra o seu sorriso ou contra o seu corpo; o vermelho nas minhas faces denunciou-me e ela riu-se de forma tímida, mas melodiosamente sedutora.

Uma outra mulher rompeu-me o pensamento como um trovão. Apenas breves instantes, mas foi o suficiente para despertar do estado de embriaguez em que me encontrava e para as suas feições de criança angelical contorcerem-se numa expressão amarga. Chegou-se para trás, afastando-se de mim e, retomando a posição inicial, sentou-se novamente. Fitou-me com desagrado e voltou a colocar o véu, de olhos tristes e desapontados.

Eu pisquei os olhos duas vezes sem saber o que fazer. Levantar-me e sair, ou retirar o véu novamente.

Que farei?